domingo, 16 de setembro de 2012

CADEIA DE FITA

Quais as consequências d'eu agir por impulso?
Se não tenho par, sou um todo avulso?
O que dirá se o pior acontecer comigo?
Já que não tenho amante, nem lar, nem abrigo?

Eu sou a força retumbante que surge
Sou a fera silenciosa que ruge
Sou o conteúdo prévio do relicário
Mas acima de tudo, solitário

Samurai soturno que vaga sem rumo
Combatente tolo que sua causa desconhece
Luta voraz mas mesmo assim sem prumo
Pois parece impossível achar o que merece

A vida transita, o tempo transita, tudo transita
Formam-se os pares todos lado à lado
E eis-me aqui nessa cadeia de fita
Onde continuo... abandonado.





terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Discurso da Formatura do Curso de Letras - 30/01/2012


Boa noite a todos aqueles que hoje nos prestigiam com sua presença. Estamos aqui reunidos para escrevermos juntos a última página desta Epopéia acadêmica e celebrar a ascensão dos mais novos maestros da palavra, construtores de conhecimento e amantes da língua por natureza. E é com a sensação de empunhar a caneta com o peso da galhofa dos grandes mestres da literatura que tentarei descrever o que significa tal realização.
Parece que foi ontem: olhares afoitos, semblantes de ansiedade e o espírito de aventureiro que se atira em meio ao desconhecido radiante em cada indivíduo. Instaurava-se então a vivência e a convivência permeadas por impulsos; uns pela certeza do porque de estarem ali, outros pela necessidade de encontrar tal afirmação, mas todos envolvidos pelo ideal de fazer acontecer. Começávamos então uma mesma jornada juntos, passávamos a encarar o mesmo desafio de desbravar o universo das Letras e fazer deste nosso habitat natural, nosso templo, nosso lar e nossa fonte de força e inspiração, mas também o refúgio nos momentos de introspecção, onde a leitura foi a melhor amiga, aquela que acolhe, diverte e passa o tempo nos momentos mais amenos, não deixando de ser tirana, inconveniente e exaustiva nos ápices de estudos e pesquisas, mas que ainda assim não renegando tal amizade fez-nos crescer, seja como professores, estudiosos, pesquisadores ou na essência mais pura do ser humano.
Foram três curtos-longos anos, onde muito aconteceu, deixou de acontecer, não deveria ter acontecido ou aconteceu menos vezes que o desejado, mas o importante é que fizemos, desfizemos, refizemos e acima de tudo não deixamos de fazer. E nessa ciranda mágica de ações e reações teve um pouco de tudo, rotina, entendimentos, desentendimentos, laços sólidos de amizade nascendo, conflitos que vieram à tona, e entre um acontecimento e outro sempre havia tempo para encenar uma peça teatral, declamar uma poesia ou fazer uma apresentação musical. Tal magia fez o tempo passar diante de nossos olhos de tal forma que só o notamos quando olhamos para trás e conseguimos perceber o quanto andamos, o quanto mudamos, o quanto crescemos. Mas no decorrer deste processo a palavra magia teve seu lugar único e exclusivo no dicionário apenas, porque na árdua rotina de estudioso da língua e nos momentos mais áridos deste caminho as armas fundamentais foram dedicação, esforço e perseverança, seja de nós que completamos tal ciclo, seja por parte dos professores que com a grandeza dos verdadeiros mestres deram-nos todo o respaldo necessário para que pudéssemos galgar tal caminho com o máximo de segurança possível.
E hoje ao dar-se por consumado o ápice de toda essa trajetória inspiro-me num puro momento de epifania para juntar duas indagações de grandes mestres da literatura e perguntar ao íntimo de cada um de nós: “E agora, José?” “Valeu a pena?”. Pois bem, não só valeu a pena, como cada momento se fez válido e cada indivíduo pode mostrar seu valor, seja de forma mais explicita ou mais discreta, pois para quem tem a palavra como elemento crucial, até o silêncio não passa como algo mudo. Enfim, “não serei o poeta de um mundo caduco”, tampouco “cantarei o mundo futuro”, porque o mundo futuro começa pelos professores do amanhã, e os professores do amanhã são vocês meus colegas, somos nós. Porque ninguém se torna professor, tal feitio é um dom, um estado de graça, o título que recebemos hoje já é um brasão que brilha em nossas almas há tempos, e por isso, a partir de então independente se este será ou não o ofício oficial de cada um de nós, já somos por essência docentes na disciplina “arte da vida”.

Maurício Carlos Leite Pinto